Conto: A sessão

2007 August 7
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by Cesar Cardoso

Esse é um conto, uma obra de ficção etc e tal. Take it easy :)

Saulo olhou para o relógio[bb], mandou o computador[bb] desligar, se despediu dos colegas, saiu pela porta, desceu pelo elevador até a garagem[bb], pegou o seu carro e saiu pelo trânsito do Centro do Rio.

No sinal da Almirante Barroso com Rio Branco, puxou o celular e ligou para o número de Carolina:

- Estou saindo do trabalho agora, espero não me atrasar nessa sessão.
- Tudo bem, você sabe que eu espero por você o tempo que for necessário.
- Obrigado, Carol. Eu te amo… sério!

E, sob o som de risos dos dois lados, o telefone foi desligado.

Saulo e Carol tinham uma longa e sólida amizade. Estudaram o primeiro grau, do tempo que se chamava primeiro grau, e o segundo grau, do tempo que se chamava segundo grau, juntos. Saulo foi fazer Ciência da Computação e Carol, Psicologia; Saulo logo conseguiu um emprego de analista júnior, depois pleno, em uma empresa de software, onde era visto como um wonderboy, enquanto Carol começou a clinicar, com uma clientela pequena porém fiel, que incluía Saulo. Digno de nota é o fato de que a amizade deles tinha resistido à maior das provações das amizades entre homem e mulher, que é os dois irem para cama; o evento ocorreu numa chopada universitária, e o estado alcoólico dos dois garantiu que a transa fosse um fiasco, reforçando os laços de amizade. Mas Saulo não pensava nisso, entretido que estava com Bob Dylan[bb] no MP3[bb] do carro e com o trânsito carioca; e também Carol não pensava nisso, imersa nas suas anotações no PDA[bb] e na audição da última sessão de Saulo.

Depois de alguns minutos brigando com a saída da Rio Branco, o Aterro, o caos de ônibus e vans atolados no ponto da saída da passagem subterrânea do Rio Sul, os zilhões de sinais de trânsito de Copacabana e com o amarrado trânsito da Prudente de Morais, Saulo chega à quadra do consultório de Carol, numa galeria comercial[bb] da Visconde de Pirajá, numa das típicas, simpáticas e charmosas galerias comerciais de Ipanema. Num golpe de sorte consegue uma vaga rapidamente, estaciona o carro e vai andando até o centro comercial; lá chegando, pega o elevador, chega no andar, se desloca em direção à porta, toca a campainha. Carol atende, os dois trocam um beijo social.

- Chegou cedo, hein? O trânsito estava tão bom assim?
- Pois é. Dei sorte.
- Então tire os sapatos e deite-se no divã.

Saulo obedeceu às ordens da terapeuta, enquanto Carol rezava calada para que Freud e Jung a guiassem – sim, Carol rezava para Freud e Jung da mesma maneira que se reza para uma divindade; ela sabia que era um ato irracional, mas mesmo assim rezava. Logo aquele mulherão – ah sim, Carol era um mulherão, longos cabelos louros, mais de 1,80m, peitão natural (Carol era alvo de inveja das mulheres que só conseguem ter peitão pagando pelo silicone[bb]), bundão também natural, coxas bem grossas, e um rosto e uma pele que davam menos que a idade de 25 anos – sentou-se à sua cadeira, ligou o cronômetro discretamente e começou a sessão.

- Bom Saulo, na sessão passada você estava falando da sua situação com a Morgana… falou com ela?
- Ahn… na verdade, nem tentei procurá-la.
- Não tentou? Porque?

E, durante os 50 minutos da sessão, Carol explorou o caso do vai-não-vai do relacionamento de Saulo com Morgana para chegar mais perto da dificuldade de Saulo de se relacionar afetivamente com as pessoas. Carol, na sessão, foi deliberadamente dura com Saulo, tanto que ele, em alguns momentos, logo o Saulo “homem de gelo”, ameaçou chorar.

O cronômetro, também discretamente, anunciou o final da sessão. Carol deixou um tempo para que Saulo se recuperasse; assim que Saulo esboçou uma movimentação, ela lhe deu um lenço[bb]. Saulo enxugava as lágrimas que fugiam do seu rosto enquanto Carol fazia um recibo. Logo Saulo tirou a folha de cheque, preencheu com o valor da sessão e entregou a Carol, contra o recibo preenchido.

- Saulo, não sei se semana que vem estarei aqui. Mas o nosso almoço na quarta está confirmado, lá eu vou dizer se vou poder estar aqui segunda que vem.
- Ótimo! No lugar de sempre?
- No lugar de sempre, claro. Onde mais? – Carol gargalhou, logo acompanhada por Saulo.

Os dois se despediram, Carol abriu a porta para Saulo sair e a fechou.
Enquanto Saulo descia o prédio, pegava o carro e saía de Ipanema, Carol fazia as anotações da ficha dele no PDA.
Enquanto Saulo cruzava o Leblon e São Conrado, o lenço[bb] de Carol toca. Número conhecido. Ativou o viva-voz enquanto entrava no internet banking do seu banco.

- Oi, Mirtes.
- Oi, Carol. Já acabou sua sessão?
- Já.
- Só lembrando que você tem que estar às 10 da noite no apartamento do deputado.
- Ele já pagou o cachê?
- Já. 1500 reais. Repassei 1350 para sua conta.
- Espere um pouco… (uns dois segundos) Confirmado. O endereço ainda é aquele?
- Isso, ainda é aquele. E reforçando: pareça burrinha e engula sem fazer cara feia e sem deixar escorrer. O deputado é um excelente cliente, você não pode perdê-lo.
- Verdade, o deputado é um excelente cliente. Bom, agora vou me arrumar, tenho aí quase 3 horas mas não quero dar chance pro azar. Tchau!
- Tchau, Carol!

O telefone foi desligado. E, enquanto Saulo chegava em casa, Carol se aprontava para a próxima jornada. No mínimo, ela teria boas fofocas para contar para ele na quarta.

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3 Responses leave one →
  1. 2007 August 7

    Olha só, passo um tempo sem aparecer e o cara virou escritor, hehe… Grande Carol, me passa o telefone dela (paraquedista style), não tenho grana sobrando mas faço um estrogonofe matador :-) .

  2. 2007 August 12

    Senti falta das drogas e rock’n roll :-) Mas é um excelente conto!

    []’s

  3. 2007 August 12

    Colocar drogas e rock’n'roll é fácil, basta trocar Bob Dylan por Rolling Stones, hehehe :D